Brasil tem ritmo recorde de envelhecimento

Matéria publicada no Valor Econômico trata do aumento da expectativa de vida do brasileiro e as consequências para a Previdência – em médio e longo prazo.

No último dia 17, Euclydes Barbulho reuniu os quatro irmãos em sua casa. Com eles, outros 60 parentes, entre filhos, netos e agregados, para festejar a longevidade dos anfitriões. Caçula, Euclydes tem 82 anos. Jandyra tem 87, Egydio, 90, Zilda, 92, e Adelina, 94. Juntos, são 445 anos. “Quase a idade da Mooca!”, comemora Euclydes, referindo-se ao bairro em São Paulo que acolheu seus pais, imigrantes italianos, no fim do século 19, e no qual a família vive desde então.

Improváveis há algumas décadas, encontros como o dos Barbulho devem ficar cada vez mais comuns no Brasil. A América Latina, junto da Ásia, é atualmente a região em que a população envelhece mais rapidamente, como constataram os economistas Rogério Nagamine Costanzi, especialista em Previdência, e Julimar da Silva Bichara, da Universidade Autónoma de Madrid.

 

Os irmãos Barbulho Jandyra, 87 anos; Adelina, 94; Zilda, 92; Egydio, 90, e Euclydes, 82 (da esquerda para a direita): longevidade surpreendente (Foto: Valor Econômico)

Com base nas últimas projeções de população da Organização das Nações Unidas (ONU), eles verificaram que a proporção de pessoas com mais de 60 anos na América Latina deve saltar dos atuais 11,2% para 37,4% em  2100, nível maior do que o previsto para a Europa, hoje o continente mais envelhecido, 35%.

Para o Brasil, a expectativa é ainda superior, 38,8% em 2100, ante 11,7% atualmente. A marca dos 33%, afirma Constanzi, chegaria ainda em 2060, de acordo tanto com as projeções da ONU quanto com as do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que só divulga estimativas até esse período. A principal fase de envelhecimento duraria até 2020, quando se encerra o chamado “bônus demográfico”, até as décadas de 2060 e 2070, quando o nível passaria a crescer em ritmo bem menos acelerado.

Apenas nos próximos 25 anos, a proporção de latino-americanos com mais de 60 anos avançará de 11% para 20% da população, metade do tempo que os europeus levaram para fazer essa transição, entre 1950 e 2000.

“Há risco que a América Latina fique velha antes de ficar ‘rica’, com importantes consequências para o desenvolvimento”, pondera Costanzi, que é ex-diretor do departamento do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) e ex-coordenador-geral dos estudos previdenciários do Ministério da Previdência Social.

E o risco não recai apenas sobre o desenvolvimento, mas também sobre os regimes de aposentadoria e de seguridade social, ele lembra. Com a queda contínua das taxas de fecundidade e de mortalidade, todos os países do mundo contarão com número cada vez menor de trabalhadores para sustentar suas respectivas previdências. No Brasil, a chamada razão de dependência passou de 5,4 idosos de 65 anos ou mais para cada 100 pessoas com idade de 15 a 64 anos hoje. No cenário desenhado com os números da ONU, em 2100 seriam 61,9 para cada 100 – ou seja, haveria apenas 1,6 pessoas para sustentar cada idoso de 65 anos ou mais.

A reforma anunciada recentemente pelo governo, portanto, seria também uma maneira de manter a viabilidade financeira do sistema brasileiro diante dos desafios que a demografia já coloca, diz o economista. Para Euclydes, contudo, se as mudanças na PEC que foi enviada ao Congresso deve fazer com que o brasileiro trabalhe mais e ganhe menos depois dos 65, a situação dos aposentados de hoje não é menos desafiadora.

“Eu tenho carro, apartamento...tenho muita coisa, só não tenho dinheiro”, ele se queixa, referindo-se à aposentadoria de pouco mais de três salários mínimos. Gerente de recursos humanos – profissional da antiga Fogões Semer por 25 anos -, ele se aposentou aos 60, em 1994, antes da criação do fator previdenciário, em 1999. Naquela época, os benefícios eram definidos a partir de um “coeficiente de cálculo” e o período mínimo de contribuição era de 30 anos.

Entre os quatro irmãos vivos – seus pais, Valentim e Constança, tiveram 12 filhos -, o que está em melhor situação é Egydio, que foi funcionário público da corregedoria da polícia de São Paulo. “O salário dele não caiu tanto”, conta. Entre as três irmãs, todas viúvas, Adelina e Zilda não chegaram a trabalhar – “naquele tempo era tudo diferentes para as mulheres” – e vivem da pensão paga pelo INSS. Zilda foi feirante, ao lado do marido, e sempre recolheu contribuição previdenciária. Junto da pensão, portanto, ela acumula ainda uma aposentadoria.

Euclydes Junior não vem dando ouvidos ao pai – mas não inteiramente por culpa sua, assume o aposentado. “Hoje em dia as pessoas trocam muito de emprego. A previdência privada depende muito também da iniciativa da empresa. Com essa crise, quem tem dinheiro para separar para a aposentadoria?”.

Passada a reforma da Previdência, contudo, os brasileiros que queiram manter o padrão de vida após a aposentadoria não terão opção a não ser poupar, avalia Carlos Garcia, da Itajubá Investimentos. Todos os países que passaram por reestruturações bem-sucedidas nos sistemas de previdência, ele afirma, organizam hoje a aposentadoria em três pilares – a pública, que paga benefícios modestos, a complementar, patrocinada por empresas e sindicatos, e a individual, feita por iniciativa do trabalhador.

“É assim no Canadá, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Holanda...”, enumera o economista, que trabalha com previdência complementar desde 1989. No Brasil, contudo, os valores mais generosos pagos pela aposentadoria pública, diz, desestimulam a procura por serviços oferecidos pelo setor privado – cenário que tende a mudar com a reestruturação proposta pela PEC.

O patrimônio das entidades fechadas de previdência complementar, ressalta Garcia, é de apenas 12,6% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme os dados mais recentes divulgados pela Previdência Social, contra 160% na Holanda, 120% na Suíça, 110% na Austrália e 83% na França.

 

Conteúdo publicado originalmente no Valor Econômico
 

Tags: aposentadoria expectativa de vida futuro previdência previdência complementar Previdência Social

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