Maternidade e carreira: é possível conciliar?

Pesquisa afirma que o número de famílias chefiadas por mulheres aumenta

“Houve um período da minha vida, enquanto me preparava para trabalhar em um projeto no exterior, que só conseguia ver meus filhos no fim de semana. Quando chegava em casa eles estavam dormindo e quando saía, ainda não estavam acordados. Eu então tirava o menor da cama de manhã bem cedinho, pegava no colo e ficava abraçando-o enquanto dormia para poder senti-lo um pouco”.

O relato acima é de Celisia Maria Luz Motta e Silva, 48 anos, coordenadora na área de Tecnologia da Informação em uma grande empresa. Celisia conta que o momento mais difícil de toda sua vida foi quando decidiu participar de um projeto fora do Brasil. “Fui sozinha para a Colômbia, meus dois filhos e marido ficaram. Geralmente passava um mês lá e uma semana aqui no Brasil. Essa dedicação à carreira é uma escolha minha. Não me arrependo de ter passado esse período longe, foi muito bom para mim mas nem tanto para meu filho que chegou a desenvolver um distúrbio que beirou a hiperatividade”, explica.

Celisia (em pé) com os amigos de trabalho, Cleiton Possenti, Daniela Aparecida (centro) e Bianca Oliveira

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2010, o número de famílias chefiadas por mulheres passou de 22,2% em 2000, para 37,3% em 2010. Esse dado mostra o que a população já percebe há algum tempo: as mulheres estão conquistando o mercado de trabalho. Mas como valorizar a profissão ou evitar uma pausa na vida profissional sem abrir mão da maternidade?

Para ela, que trabalha em um setor onde a presença masculina ainda é predominante, os homens lidam melhor com a ausência da família do que a mulher. Celisia é responsável por manter a casa e faz isso com sabedoria. “Comecei a trabalhar com 14 anos. Não precisava, já que meus pais me proporcionavam tudo mas queria ter meu próprio dinheiro. Tenho a vida financeira equilibrada porque meus pais me ensinaram assim e eu ensino para os meus filhos”.

Ela paga a previdência complementar há 21 anos e incentiva as amigas que ainda não aderiram a participar. “Me aposento pelo INSS em um ano e oito meses mas vou continuar trabalhando, só que com uma renda a mais”, comemora.

A dedicação e entrega de Celisia para manter as finanças em ordem tem dado bons resultados dentro de casa. Além da visão de futuro, a analista de sistemas faz questão de ensinar aos filhos de 9 e 14 anos, na prática, a importância de poupar. “Todo mês eles fazem alguma aplicação no banco, que é representado por mim. Pergunto quanto eles querem aplicar de R$ 1 a R$ 5. Se aplicarem R$ 5 em um mês, terão R$ 10 no próximo. Meu filho está cheio da grana”, se diverte.

De acordo com Marcelo Cambria, professor de finanças da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras, embora a mulher ainda carregue o estigma de consumista, ela consegue ser ainda mais dedicada às finanças do que os homens. “As mulheres devem usar a boa disciplina feminina para poupar recursos. Acreditar que apenas a renda do marido e a aposentadoria pelo INSS serão suficientes para atender as necessidades do futuro estão entre os erros mais cometidos”, explica o professor de finanças da FIPECAFI.

Para a analista de sistemas Maria Paula, não é fácil para a mulher conciliar carreira e família. “Todos esperam que você seja uma profissional que não tem filhos e uma mãe que não trabalha. Escola, médico, dar atenção para os filhos, marido e trabalho. Tenho muitas amigas que desistiram de trabalhar para se dedicar somente a maternidade. Batalhei muito para não abandonar minha carreira e conseguir conciliar tudo”, confessa.

Celísia afirma que lida com a empresa com o mesmo carinho e amor que lida com as questões pessoais e afirma que é privilegiada por ter um marido companheiro, atitude que segundo ela, é incomum entre os homens. 

Assim como a analista de sistemas, Maria Paula paga a previdência complementar dos filhos desde que eram bem novinhos “Ela é fundamental por que garante um padrão de vida que não vai existir se contar só com a Previdência Social. Acredito que a previdência complementar no Brasil ainda não é muito fomentada, há bastante coisas a serem divulgadas”, sugere a analista de sistemas.

“Já dormi no carpete da empresa, virei noites e passei até Réveillon no escritório, foram muitas situações de entrega. Hoje já consigo realizar meu trabalho no prazo e consigo dar atenção para os meninos. Pego e levo na escola, acho que por um presente de Deus hoje moro perto do trabalho e da escola. Encontrei o equilíbrio”, comemora Celisia.

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